O mundo dela é assim

Recentemente, a estagiária de marketing de um colégio particular foi chamada a uma salinha para conversar com sua diretora, onde foi repreendida quanto à sua aparência física: “Como você pode representar o colégio com esse cabelo crespo? O padrão daqui é cabelo liso”. Aqui, é importante ressaltar que o cabelo crespo de Ester é um dos atributos que caracterizam sua raça: a negra.
Ester chorou no banheiro, e foi além: corajosa, denunciou na delegacia o crime de racismo do qual havia sido vítima.
Ao saber do ocorrido, um jornalista publicou em seu blog o texto Nem injustiça, nem racismo: o mundo é assim . Um jornalista homem, de classe média, branco - nunca lhe ocorreu que o mundo dela é diferente do dele: o mundo dela é assim, não o dele.
Comentei no blog do tal jornalista, mas meu comentário não foi publicado. Até entendo.. não é todo mundo que gosta de ter em seu blog um comentário que diz que o seu texto é repugnante. Só acho curioso ele ter medinho de um comentário que critica seu trabalho e achar super natural o que aconteceu com Ester.
Vou publicar meu comentário aqui, então. E publico, também, um desenho que fiz para Ester, é dela se cair nesta página e quiser vir buscar.
A beleza só existe quando é descoberta e revelada - espero, com o meu desenho, revelar a beleza ignorada e esquecida pela violência do racismo.
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“Meu caro, tive que contar até 10 antes de escrever este comentário, tamanha a repugnância que ele me causou. Vamos por partes.
Primeiro grande problema da sua linha de raciocínio: comparar vestimenta com característica física. A própria exigência de vestimenta está em xeque em muitas empresas, mas nem quero entrar nesse assunto pra não desviar o foco (como foi o caso do jovem jornalista que você citou). São coisas diferentes. É óbvio que o grande problema aqui não é ter pedido pra tirar a flor do cabelo e nem o de usar uma roupa mais comprida, e sim o de impedir que a menina exercesse sua função usando seu cabelo como ele é, crespo. Exigir que um funcionário altere uma característica física sua não te parece um tanto mais invasivo do que exigir que o funcionário use um uniforme durante o expediente? É direito das empresas terem tamanha interferência e poder sobre a vida de seus funcionários?
Entendo que fica difícil definir exatamente este limite de poder, e essa é uma reflexão que ainda precisamos ter em sociedade. Mas veja como fica mais fácil de entender o absurdo desse caso específico, independentemente da sua ideologia, quando você se coloca no lugar da vítima: digamos que a empresa em que você trabalha decida mudar de posicionamento e queira passar uma imagem mais “jovem” - você não se sentiria ofendido e injustiçado se te pedissem pra tingir seus cabelos brancos de modo a disfarçar sua idade, ou seja, para esconder uma característica sua que não tem relação direta com a função que você desempenha, mas sim com uma cultura preconceituosa e covarde que a empresa aceita, abraça e ajuda a reforçar?
E aí tocamos na segunda questão fundamental: qual a relevância do tipo de cabelo para o desempenho de uma função de estagiária de marketing? Se não tem relevância, a questão se encerra aqui. Se tem, e a função primordial da menina é representar a imagem que o colégio quer ter para os alunos (como seria o caso da recepcionista da academia, por exemplo), veja que o problema só piora: que imagem é essa que o colégio quer passar? A de que é um colégio para pessoas de cabelo liso? Ou seja: a de que é um colégio onde não há espaço para negros, por exemplo? Isso é GRAVÍSSIMO, meu caro. E, como de costume, eu me espanto ao ver pessoas aparentemente esclarecidas e bem-informadas como você não perceberem essa gravidade.
E vamos falar da grande base da sua argumentação: “o mundo é assim”. Você tá falando sério? O fato de “o mundo ser assim” significa que temos que nos conformar com ele? Ele é assim hoje, mas já não foi assim ontem e, se Deus quiser, não será mais assim amanhã! Se você tivesse vivido antes da Lei Áurea, você diria pra um negro escravo, com a mesma ironia repugnante com que se referiu à menina em questão: “querido, se conforme, o mundo é assim”?.
“Principal: é racismo da diretora do colégio? De longe, não me parece.”
Realmente, você está muito longe. Talvez, como jornalista, pudesse chegar um pouco mais perto do problema antes de se sentir apto a opinar sobre uma questão dessa gravidade.
Sou branca, o que também torna mais difícil pra mim sentir o racismo - quem não sente na pele tem mais dificuldade de perceber mesmo: é necessário abrir muito bem olhos e ouvidos, conversar com quem passa por isso, ampliar os horizontes do próprio mundinho.
Eu já vi o racismo de perto. Por um grande acaso, eu também já trabalhei como estagiária em uma faculdade particular exercendo exatamente função similar à que esta menina exercia. E, não tão por acaso, um dos meus colegas também sofreu com o racismo da nossa coordenadora - ela lhe falou uma frase do tipo “cuidado pra não aparentar muita intimidade com as visitantes, ainda mais você que é meio escurinho”. Ele me contou isso rindo… eu ouvi chorando.
Também em outra ocasião, quando trabalhei em loja de shopping, eu era a única funcionária que podia usar cabelo solto. Eu era também a única de cabelos lisos, veja só mais essa coincidência. Eu mesma demorei pra me tocar… aos poucos, fui tentando entender, até que ouvi a explicação da minha chefe: “é que dá uma aparência mais limpinha”.
Não fique aí do alto do seu privilégio julgando e chamando de “querida” uma menina corajosíssima que, certamente, precisa desse estágio (como era o meu caso - e como era o caso do meu amigo que, talvez por isso, optou por “deixar pra lá”) e, mesmo assim, resolveu não se conformar com o crime do qual foi vítima. Se você já passeou fora do mundo “homem branco instruído de classe média/alta” (sim, porque você tem alguma dúvida de que vive num mundo diferente dos negros, das mulheres e dos pobres?), você sabe que essa, certamente, não foi a primeira vez que essa menina sofreu com o racismo.
Se ela resolveu fazer algo a respeito pra mudar esse mundo que, infelizmente, ainda é assim, ela não merece menos do que o seu total apoio e admiração.
Espero, sinceramente, que você reflita sobre o que escreveu.
Um abraço.”
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resposta. Muito educada
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Grande resposta! Eu e meus cachos não teríamos dito melhor…
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